Visita
à exposição: Acidente Geográfico de Luis Arnaldo
MARCO - Museu de Arte Contemporânea
MARCO - Museu de Arte Contemporânea
O
Grupo de Pesquisa Pensar o Desenho realizou uma visita à exposição “Acidente
Geográfico” de Luis Arnaldo, no Museu de Arte Contemporânea – MARCO, com a
intenção de analisar e refletir em conjunto as obras expostas e em particular
os desenhos.
Foram observadas e debatidas pelo o grupo
questões que envolvem os materiais usados pelo artista, sua paleta de cores, a
dicotomia expressiva entre figuração e a abstração, a relação imanente entre as
linguagens artísticas do desenho, fotografia e vídeo, a luminosidade e o meio
externo, interagindo com o meio interno. Foi comentada a importância do
repertório cultural do artista, assim como a importância da expografia, e de como a
localização das obras induz a uma leitura especifica por parte do público.
Luis
Arnaldo ao comentar sua exposição escreveu “Sedução pelo horror e precariedade
do mundo, a distância, como evento onírico.” O artista propõe a experiência
sensorial, risco de soterrar o problema real, no caso a mostra dos
deslizamentos que ocorrem em seus desenhos. A exposição “Acidente Geográfico”
convida a refletir, sobre os vários níveis de horror que cada pessoa carrega em
si.
Os
materiais usados nos rementem a sensação de beleza, em meio a um cenário de
caótico de destruição, causando desta maneira uma sensação de beleza no caos.
A
naturalização do horror que seduz e para muitos tira do tédio, nos faz
refletir, um universo de consumo, onde o tédio se dá como uma espécie de
fracasso.
A
exploração da sensação de sedução pelas obras é reforçada pela montagem da
exposição. Nos deparamos com desenhos de grandes dimensões (196 cm X 83 cm
cada), ao passarmos pela porta, fomos como que convidados a adentrar pelos
imensos desenhos postos sobre a parede, paisagens intensas criadas dentro da
ambiguidade figuração e abstração, série de desenhos que o artista intitulou de
Acidente geográfico, resultam em obras abertas, onde o espectador é
participante ativo. O mesmo impacto de sedução ocorre em relação á série de
obras Silêncio, desenhos e fotografias cada com 15 cm X 42 cm, são desenhos de
paisagens da natureza com maior detalhamento no seu registro gráfico figurativo,
as fotografias de luminosidade baixa remetem para ambientes internos. A série
Silêncio estava exposta na parede frontal, com uma dezena de metros de
distância da série Acidente geográfica. A natureza interna e externa em
diálogo.
Ao
debatermos um pouco mais sobre os desenhos de Acidente geográfico em relação á
técnica e materiais, acidente geográfico na natureza consiste na mistura de
diversos elementos que fazem parte de outro contexto, mas após se misturarem causam
“essa deformidade”. O artista usou diversos materias que remetem ao acidente,
como o uso de cimento, pastel oleoso, pigmento em pó, dentre outros; justamente
para nos causar essa impressão de acidente, enquanto obra, explorando ao máximo
a questão da conflitualidade dos materiais usados. Esse fato acaba sendo
reforçado, pois assim como o acidente geográfico, não sabemos o que pode
acontecer ao longo do tempo, os materiais usados, se comportam da mesma
maneira.
Na
análise das formas apresentadas o fato de serem imagens com características
ambíguas entre figuração e abstração, acentuou a percepção de como o repertório
de cada um de nós faz leituras individuais de cada obra.
Os
desenhos se complementam através de diferentes linhas de horizonte, um elemento
de um desenho influi diretamente no outro ao seu lado criando um conjunto que
se vai completando.
A
exposição funciona em seu todo como que uma instalação. Reforçado pela a ideia
de que as obras podem se alterar ao longo do tempo, a maneira como o desenho
pode mudar a nossa maneira de ver as coisas. O desenho que criamos e nos faz
enxergar o que está dentro de nós.
Luis
Arnaldo descreve acidente geográfico como o cúmulo de geográficos, para
designar um espaço (artificial ou natural). O mesmo pode ser tanto proposital,
quanto geológico, que pode ser um processo de caráter longo ou de caráter
duradouro. Essa descrição nos provocou uma reflexão sobre a relação à produção
artística atual, como ela está relacionada a um acidente geográfico, se
comparada ao Renascimento, por exemplo. Ligado a este fato recordamos se os
materiais usados, durante a composição são de desejo recorrente do artista ou
apenas usual para aquele momento? O que torna o artista único, enquanto a esse
desejo, durante o período dito como não visível (parte do processo de produção
da obra), ressaltando nesse momento a importância do acontecimento de fazer
algo. O que foi retratado e mostrado durante a série (o seu processo de
criação). Processo esse que o próprio artista cita como muito importante e
descreve em seu texto: O que o torna particular então é o que escorre por
detrás do visível [...] as obras como algo que se costuram entre si.
Podemos
pensar que a não conexão com o cenário de horror se deu apenas após leitura do
texto do artista e se fazer uma desconexão de não se ver o fogo na abstração.
Temos nesse aspecto a naturalização do horror no nosso cotidiano.
Na
série de obras desenho versus fotografia foi possível criarmos um bom diálogo
entre essas linguagens artísticas, ambos mostram o real, nas fotografias o
artista se apresentava perto de uma janela, da qual nos perguntamos será que
ele realmente observava uma cena externa e desenhava e será esse o verdadeiro
motivo da ligação entre as fotografias com o desenho? Do desejo do artista em
mostrar o seu processo de criação? Outro questionamento surgido foi sobre a
vontade de liberdade criativa através de perder o medo ao usarmos certos tipos
de materiais, tal como o artista conseguiu nos mostrar nesta exposição.
Trazendo
assim relação de um processo criativo e gerador de força reflexiva, o desenho
como experiência estética libertadora. Gerando uma vontade de desenhar, nas
maiorias das pessoas que observava a exposição.




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