sábado, 4 de fevereiro de 2017

Texto Coletivo - Acidente geográfico


Visita à exposição: Acidente Geográfico de Luis Arnaldo
MARCO - Museu de Arte Contemporânea

O Grupo de Pesquisa Pensar o Desenho realizou uma visita à exposição “Acidente Geográfico” de Luis Arnaldo, no Museu de Arte Contemporânea – MARCO, com a intenção de analisar e refletir em conjunto as obras expostas e em particular os desenhos.

 Foram observadas e debatidas pelo o grupo questões que envolvem os materiais usados pelo artista, sua paleta de cores, a dicotomia expressiva entre figuração e a abstração, a relação imanente entre as linguagens artísticas do desenho, fotografia e vídeo, a luminosidade e o meio externo, interagindo com o meio interno. Foi comentada a importância do repertório cultural do artista, assim como a  importância da expografia, e de como a localização das obras induz a uma leitura especifica por parte do público.

Luis Arnaldo ao comentar sua exposição escreveu “Sedução pelo horror e precariedade do mundo, a distância, como evento onírico.” O artista propõe a experiência sensorial, risco de soterrar o problema real, no caso a mostra dos deslizamentos que ocorrem em seus desenhos. A exposição “Acidente Geográfico” convida a refletir, sobre os vários níveis de horror que cada pessoa carrega em si.

Os materiais usados nos rementem a sensação de beleza, em meio a um cenário de caótico de destruição, causando desta maneira uma sensação de beleza no caos.

A naturalização do horror que seduz e para muitos tira do tédio, nos faz refletir, um universo de consumo, onde o tédio se dá como uma espécie de fracasso.

A exploração da sensação de sedução pelas obras é reforçada pela montagem da exposição. Nos deparamos com desenhos de grandes dimensões (196 cm X 83 cm cada), ao passarmos pela porta, fomos como que convidados a adentrar pelos imensos desenhos postos sobre a parede, paisagens intensas criadas dentro da ambiguidade figuração e abstração, série de desenhos que o artista intitulou de Acidente geográfico, resultam em obras abertas, onde o espectador é participante ativo. O mesmo impacto de sedução ocorre em relação á série de obras Silêncio, desenhos e fotografias cada com 15 cm X 42 cm, são desenhos de paisagens da natureza com maior detalhamento no seu registro gráfico figurativo, as fotografias de luminosidade baixa remetem para ambientes internos. A série Silêncio estava exposta na parede frontal, com uma dezena de metros de distância da série Acidente geográfica. A natureza interna e externa em diálogo.

Ao debatermos um pouco mais sobre os desenhos de Acidente geográfico em relação á técnica e materiais, acidente geográfico na natureza consiste na mistura de diversos elementos que fazem parte de outro contexto, mas após se misturarem causam “essa deformidade”. O artista usou diversos materias que remetem ao acidente, como o uso de cimento, pastel oleoso, pigmento em pó, dentre outros; justamente para nos causar essa impressão de acidente, enquanto obra, explorando ao máximo a questão da conflitualidade dos materiais usados. Esse fato acaba sendo reforçado, pois assim como o acidente geográfico, não sabemos o que pode acontecer ao longo do tempo, os materiais usados, se comportam da mesma maneira.

Na análise das formas apresentadas o fato de serem imagens com características ambíguas entre figuração e abstração, acentuou a percepção de como o repertório de cada um de nós faz leituras individuais de cada obra.

Os desenhos se complementam através de diferentes linhas de horizonte, um elemento de um desenho influi diretamente no outro ao seu lado criando um conjunto que se vai completando.

A exposição funciona em seu todo como que uma instalação. Reforçado pela a ideia de que as obras podem se alterar ao longo do tempo, a maneira como o desenho pode mudar a nossa maneira de ver as coisas. O desenho que criamos e nos faz enxergar o que está dentro de nós.

Luis Arnaldo descreve acidente geográfico como o cúmulo de geográficos, para designar um espaço (artificial ou natural). O mesmo pode ser tanto proposital, quanto geológico, que pode ser um processo de caráter longo ou de caráter duradouro. Essa descrição nos provocou uma reflexão sobre a relação à produção artística atual, como ela está relacionada a um acidente geográfico, se comparada ao Renascimento, por exemplo. Ligado a este fato recordamos se os materiais usados, durante a composição são de desejo recorrente do artista ou apenas usual para aquele momento? O que torna o artista único, enquanto a esse desejo, durante o período dito como não visível (parte do processo de produção da obra), ressaltando nesse momento a importância do acontecimento de fazer algo. O que foi retratado e mostrado durante a série (o seu processo de criação). Processo esse que o próprio artista cita como muito importante e descreve em seu texto: O que o torna particular então é o que escorre por detrás do visível [...] as obras como algo que se costuram entre si.

Podemos pensar que a não conexão com o cenário de horror se deu apenas após leitura do texto do artista e se fazer uma desconexão de não se ver o fogo na abstração. Temos nesse aspecto a naturalização do horror no nosso cotidiano.

Na série de obras desenho versus fotografia foi possível criarmos um bom diálogo entre essas linguagens artísticas, ambos mostram o real, nas fotografias o artista se apresentava perto de uma janela, da qual nos perguntamos será que ele realmente observava uma cena externa e desenhava e será esse o verdadeiro motivo da ligação entre as fotografias com o desenho? Do desejo do artista em mostrar o seu processo de criação? Outro questionamento surgido foi sobre a vontade de liberdade criativa através de perder o medo ao usarmos certos tipos de materiais, tal como o artista conseguiu nos mostrar nesta exposição.

Trazendo assim relação de um processo criativo e gerador de força reflexiva, o desenho como experiência estética libertadora. Gerando uma vontade de desenhar, nas maiorias das pessoas que observava a exposição.





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